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Hay
mucha gente que mismo habiendo nascido en otro país, al estar en
Bolivia toma pasión por ella. Y es que Bolivia es eso, una tierra
de encanto y magia que cautiva a todos que en ella habitan.
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ENTREVISTA CCB
ARMELINDA
ZONTA

ASUNTO:
Meio
ambiente e produção comunitária em Riberalta (Beni) - no
Oriente boliviano.
DATA:
06/01/2007 LOCAL:
Barra-Velha -
SC
Armelinda
Zonta é brasileira, nascida em Barra Velha - SC, formada em Engenharia
Florestal pela UFPR e especialista em manejo sustentável dos recursos
naturais e meio ambiente, morando há mais de 20 anos em Riberalta (Beni) na
Bolívia, casada com boliviano e mãe de 2 filhos
Víctor e Aymara. Ela fundou
em Riberalta
o IPHAE -
Instituto para o Homem, Agricultura e
Ecologia, uma ONG que trabalha com
as comunidades
da região e precursora do manejo sustentável
em Bolívia.
Aproveitando sua passagem por Curitiba, o CCB fez uma entrevista com ela para
nos colocar mais por dentro desse e outros trabalhos por ela realizados.
CCB:
Você, como brasileira, fez uma mudança marcante ao se
estabelecer na Bolívia, mais precisamente na Amazônia
boliviana (Beni) há mais de 20 anos. Como foi essa
adaptação?
AZ: Tenho uma grande
facilidade para aceitar novas culturas, outras formas de
vida, outros climas, etc.; isto foi muito importante para
mim nestes 22 anos de vida na Bolívia. Devo manifestar que
na Bolívia jamais senti discriminação por ser estrangeira.
Representei a Bolívia em vários eventos nacionais e
internacionais, inclusive no Brasil, sempre com muita
responsabilidade e compromisso com a Bolívia, que me adotou
com muito carinho. Tenho uma vida construída na Bolívia e
espero poder continuar contribuindo por muitos anos, assim
como nos demais paises da nossa linda América Latina, que
necessitam de homem e mulheres com visão de continente e
compromisso de continente. Juntos todos e todas temos muito
mais oportunidades para alcançar indicadores de
desenvolvimento humanos mais eqüitativos para o conjunto dos
paises latino-americanos.
CCB:
O que é que é IPHAE, e quais seus objetivos?
AZ:
Instituto
para el Hombre Agricultura Ecologia,
é uma organização não governamental que tem como principal
objetivo combater a pobreza da população que depende da
floresta amazônica, valorizando o conhecimento local,
fortalecendo as capacidades de homem e mulheres para o uso
e o manejo do bosque e da terra, além de promover a
transformação das matérias primas, a criação de mercados e
a formação de empresas com enfoque comunitário.
CCB:
Qual era a situação dos trabalhadores e a atividade agrícola
há 20 anos e como está atualmente?
AZ:
A região amazônica continental de maneira geral estava
esquecida, abandonada, excluída das outras regiões dos
paises a que pertencem. Em Bolívia não era diferente. Há 20
anos atrás a Amazônia Boliviana somente se comunicava com o
resto do país por via aérea e fluvial. Os serviços básicos
eram mínimos e a população rural era totalmente desinformada
e empobrecida. O IDH era o mais baixo do pais, 0,55 na área
rural. Cada pessoa tinha que viver com menos de US$ 1 por
dia. A terra estava nas mãos de poucas pessoas, mais de
108.000 Km2 eram administrados por menos de 500
famílias. Os povos originários e os campesinos
extrativistas tinham como meios de vida a agricultura de
subsistência, a coleta de produtos da floresta, a caça de
animais silvestres e a pesca. A borracha das seringueiras da
floresta amazônica não teve a capacidade de competir com a
borracha extraída das florestas cultivadas em Malásia, com
isso motivou-se a migração da população rural mais afastada
das três principais cidades da região: Riberalta,
Guayaramerin e Cobija. Resultado, maior pobreza urbana,
mais necessidades de serviços básicos e pouca capacidade de
geração de empregos, por falta de infra-estrutura produtiva
e recursos humanos capacitados.
Hoje a situação esta muito mais positiva
para os trabalhadores urbanos relacionados à transformação
de produtos das florestas, castanha, madeira, cupuaçu,
patuá, etc. e para os produtores rurais. A reforma agrária
na Amazônia boliviana é uma realidade. Desde 1996 até 2006
em Bolívia, os indígenas, agricultores e campesinos
extrativistas foram os grandes lideres dos movimentos
sociais que levaram à presidência da Republica um
verdadeiro representante dos pobres. Excluídos e
discriminados por mais de 500 anos. Neste processo, que
durou mais de 10 anos, IPHAE e a Universidade Autônoma Del
Beni desempenharam um papel muito importante que foi levar
informação, através de cursos, seminários, reuniões de
intercâmbios, programas de rádio, encontros anuais,
revistas... E analisar com eles os temas que eram e são
importantes para suas vidas. Utilizar os mecanismos e as
ferramentas reconhecidas pela democracia internacional foi
e será a principal estratégia para chegar a uma sociedade
justa e solidária. Estamos com muita esperança na sociedade
boliviana e esperamos que as sociedades brasileira,
venezuelana, equatoriana, argentina.... todas encontrem mais
e mais motivos para fortalecer a unidade para todos e
todas viverem bem.
CCB:
As plantas são componentes vitais da diversidade biológica
mundial e um recurso essencial para o ser humano. O meio
ambiente é constantemente ameaçado e destruído de diversas
formas, na maioria das vezes com a intervenção humana. Que
estratégias para a conservação do meio ambiente são
desenvolvidas pelo IPHAE?
AZ:
IPHAE esta convencido que somente respeitando a natureza
será possível ser sustentável. Com esta visão estamos
fortalecendo os conhecimentos locais das populações
originarias, promovendo o manejo de bosques comunitários, a
recuperação de florestas degradadas através da implementação
e melhoramento de sistemas agroflorestais, e a organização
dos atores em Associações e empresas comunitárias para a
transformação dos produtos e o acesso aos mercados com
valores agregados. Para contribuir a conservação do meio
ambiente é fundamental combater as causas que aumentam a
pobreza. A concentração da riqueza nas mãos de poucos, é o
principal problema para a destruição de florestas, fontes de
água, terra, ... e a contaminação do meio ambiente etc.
CCB:
Nestas políticas de conservação e sustentabilidade
ecológica, incluem-se a distribuição dos benefícios obtidos
e o treinamento das pessoas envolvidas na área?
AZ:
É fundamental incidir em políticas publicas para alcançar
níveis aceitáveis de sustentabilidade. Nosso trabalho é
fortalecer os “atores” locais menos favorecidos com
capacitação, treinamento, acompanhamento técnico e apoio com
meios de produção, para sua participação em processos de
formulação, gestão, aprovação e implementação de políticas,
leis e normas (internas e externas) que assegurem uma boa
qualidade de vida para a população.
CCB:
Metas de inclusão social e produtiva para as comunidades
tradicionais de Beni fazem parte dos seus projetos?
AZ:
A essência dos projetos que IPHAE elabora e executa tem como
principio básico a inclusão de homens e mulheres menos
favorecidos em processos participativos para a tomada de
decisões tanto a nível de comunidade, regional e nacional,
assim como a participação deles e delas em empresas
comunitárias, associações de produtores, etc. Em 10 anos de
trabalho conseguimos colaborar com mais de 1500 famílias
distribuídas em 80 comunidades de oito municípios do norte
da Bolívia. Neste conjunto de comunidades se organizou
cooperativas de campesinos (dos importantes que exportam
castanha a vários paises dentro do mercado orgânico) uma
empresa Madre Tierra Amazônia SRL que processa e
comercializa cupuaçu e seus derivados (vinho, licor, polpa,
manteiga, etc), associações de comunidades que aproveitam e
comercializam madeira, etc.
CCB:
Como estão sendo encaradas as mudanças por parte da
comunidade de Riberalta? Há relutância em algum tipo de
mudança?
AZ:
Toda mudança tem conseqüências positivas e negativas para
certos grupos da sociedade. Em Riberalta os pobres, mais de
60% da população tem suas necessidades básicas insatisfeitas
e são elas e eles que estão hoje valorizando os impactos das
medidas tomadas nestes 10 anos de luta por dias melhores
para os que vivem na Bolívia. Hoje mais de 2 milhões de
hectares de terra estão sendo entregues a populações
originárias amazônicas, e claro, os patrões não estão
felizes com isso. Hoje a população menos favorecida está
sendo educada, e a informação chega a eles de várias
fontes. Acesso à informação faz muita diferença na vida de
um povo. A informação que passamos incomoda à fração da
sociedade que sempre manipulou e manipula os meios de
comunicação e até mesmo o sistema educativo vigente, em
favor de seus interesses egoístas e sem duvida da grande
capacidade deles de fazer uso dos bens públicos em favor de
famílias e grupos de poder (maçonaria muito forte), eles
estão totalmente contra o trabalho de ONGs como a nossa.
Mas a luta é esta e vamos continuar porque não existe outra
saída para alcançar a sustentabilidade. Economia neoliberal
é totalmente incompatível com sustentabilidade e portanto,
lutamos para minimizar e contribuir para o nascimento de uma
nova econômia com visão mais social para que todos vivam
bem.
CCB:
A exportação de produtos produzidos em caráter cooperativo
tem incentivado os produtores e participantes dos projetos?
Vocês contam com algum tipo de apoio do governo ou de outras
entidades nessas operações?
AZ:
O mercado orgânico, solidário, ecológico... está muito
vinculado a produção de grupos de pequenos e pequenas
produtores(a) rurais organizados em associações,
cooperativas e empresas pequenas. Castanha e madeira são
os produtos que exportam hoje grupos sociais organizados. No
futuro os planos estão relacionados a exportar polpa de
frutas amazônicas. Azeites essenciais, plantas medicinais, e
claro, serviços ambientais. Ecoturismo, biodiversidades e
bonos de carbono são os mais próximos a serem trabalhados a
nível nacional. Os governos locais (municípios) estão
abertos para incluir em sua planificação anual de gastos,
recursos para apoiar organizações econômicas de pequenos
produtores para o mercado de produtos. Também existem
interesses de fundações internacionais como WWF, HIVOS,
Fundação PUMA, SNV, PROMAB, Fundação Inter-americana, etc...
que já apoiaram e continuam apoiando a estes grupos de
maneira direta ou através de ONGs. É importante manifestar
que hoje o atual governo nacional, Evo Morales e sua equipe
estão com políticas públicas totalmente orientadas para
apoiar grupos de pequenos produtores para a geração de valor
agregado, e a comercialização dos produtos. Um exemplo são
as duas fábricas de processamento de castanha que foram
adquiridas por grupos econômicos que vão pagar em 10 anos
de prazo, com juros de 6% anual a partir do 5º ano de
funcionamento da empresa... Agora existem janelas abertas
para os pobres. Claro que o êxito depende também do
acompanhamento técnico que eles devem receber e a formação
de recursos humanos de origem popular para gerencia e
administração das empresas.
CCB:
No Brasil há denuncias de que na Amazônia brasileira algumas
ONG’s estrangeiras estariam atuando em supostas ações de
biopirataría. A falta de fiscalização do trabalho dessas
entidades parece contribuir para que isto possa ser
verdadeiro. Na Bolívia, particularmente na Amazônia
boliviana há alguma espécie de controle ou fiscalização por
parte do governo ou de outras entidades sobre as ONG's ou
empresas que exploram o meio-ambiente e que atuam nessa
região?
AZ:
Na Bolívia as ONGs internacionais trabalham através das
ONGs nacionais. Não conheço casos de roubo de recursos
genéticos. A superintendência Florestal e a direção de
biodiversidades são as responsáveis por este controle. Se
existe, está bem camuflado , pois não é tema de discussão
na região.
CCB:
Há algumas outras associações ou cooperativas de produção
que também contribuem para evitar o desemprego nos
municípios onde atuam?
AZ:
Existem outras iniciativas que hoje estão com maiores
possibilidades porque tem acesso aos recursos naturais, que
antes eram de algumas famílias.
CCB:
Nos últimos dez anos, a seu critério, como tem se comportado
a economia da região?. Há sinais de desenvolvimento ou isto
ainda está muito distante?
AZ:
Sem duvida que o crescimento econômico foi grande na região
depois que a estrada La Paz-Cobija foi aberta. Mas o que
ainda é muito deficiente é a redistribuição da riqueza
existente na região. A castanha e a madeira representam hoje
uma contribuição ao PIB da região de mais de 80 milhões de
dólares por ano. Estas duas industrias empregam mais de 7000
famílias das quais aproximadamente 30 tem um ingresso bruto
anual superior a US$ 60.000, outras 400 famílias têm um
ingresso bruto anual de US$ 8000 y o resto oscila entre US$
800 a 1200/ano. O desenvolvimento econômico depende muito
dos ingressos que a maioria tem para poder desenvolver
outras cadeias de emprego, ainda falta trabalhar melhor as
políticas publicas para mudar a situação social da população
majoritária. Sou positiva com as bases que estão elaboradas,
e agora tem que se acompanhar o processo para alcançar o
câmbio desejado.
CCB:
Para terminar, como se vislumbra a economia dessa região
amazônica da Bolívia a curto ou médio prazo e o que pensam
os comunitários sobre as mudanças que sofre o país?
AZ:
A Amazônia é o paraíso do futuro. A economia deve crescer
respeitando a natureza e as culturas existentes. Os países
do norte precisarão ajustar suas políticas internas para
contribuir de maneira honesta em relação à conservação da
Amazônia continental. Conservação somente será realidade
quando a pobreza não mais existir. Na Bolívia, a região
Amazônica está sendo vista como o território do futuro para
outras culturas: Quéchuas e Aymaras. Orientar estas culturas
para uma adaptação adequada com as fortalezas da Amazônia é
fundamental para o êxito econômico, social e ambiental. A
riqueza das reservas petroleiras do país deve ser aplicada
nos sistemas de produção que coloque a Bolívia e a região
amazônica em melhor posição de competitividade frente a
outros paises. A tendência é o crescimento acelerado nos
próximos anos, isto significa maior migração também. As
comunidades locais prestam opiniões diversas sobre o assunto
mas coincidem em que a terra tem vocação florestal e que
devem ser de preferência administradas pelas populações
regionais: Indígenas amazônicos, campesinos extrativistas,
agricultores amazônicos. A historia mostra que os colonos
estão totalmente vinculados ao manejo da terra como meio de
produção e os povos indígenas amazônicos estão totalmente
dependente do manejo da floresta. São dois meios de vida que
combinados serão uma alternativa para novas culturas que
estão dispostos a adaptar-se à Amazônia.
@CCB
AGRADECIMENTO
O CCB agradece à
Eng.Armelinda Zonta pela entrevista concedida, quem, mesmo
estando de férias, atendeu gentilmente a nosso pedido e se
dispôs a responder às questões formuladas. Desejamos mais êxito
em seu importante trabalho em benefício da Amazônia
boliviana e das comunidades que a compõem.
Curitiba, 15 deJaneiro
de 2007. CCB-PR Dpto.Cultural
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